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MARCHA DAS VADIAS: Meu corpo, minhas regras

por @laurakauf_

Hoje o texto é longo, eu sei, mas vale a pena ler até o final!

Foi nesse último domingo que rolou em Porto Alegre a Marcha das Vadias. Lamento não ter estado presente, mas me orgulho muito de dizer que minha cidade natal, machista e preconceituosa, sediou tal evento. Centenas de mulheres e homens foram à Redenção lutar pelo direito de ser mulher, por uma maior valorização e respeito.

Se você é mulher certamente já passou por momentos onde sofreu pela sua roupa ou seu comportamento, seja no nível mais leve da “brincadeira” ou do assobio – só um idiota para achar que é um elogio – seja no pior nível do abuso e do estupro. Um dia falamos aqui no Conversa Privada do machismo de outras épocas, que parece ridículo aos olhos de hoje, mas o machismo esta tão intrínseco no nosso dia-a-dia que as vezes nem percebemos o quão desrespeitadas nos permitimos ser! Eu mesma ontem, ao voltar de noite para casa aqui em Milão, tive que pedir para um amigo me acompanhar, afinal eu estava de saia curta. Por que a minha roupa é sinônimo de permissão? Até quando vamos ter que aquentar esse tipo de prisão? A única causa de um estupro é o estuprador.

A Marcha das Vadias (Slut Walk) é uma manifestação que começou no Canadá, em 2011, e já se espalhou por diversas cidades do mundo. Depois de uma série de estupros ocorridos na Universidade de Toronto, um policial, convidado para orientar sobre segurança, disse que as mulheres poderiam evitar o estupro se “não se vestissem como vadias”. Essa fala gerou indignação e diversos protestos, que acabaram culminando na primeira Marcha das Vadias.

Em um país como o nosso de frases como “se o estupro for inevitável, relaxa e goza” e “estupra, mas não mata”, não era de se admirar que finalmente as mulheres brasileiras fossem protestar. Conversamos com Letícia Ruschel, uma das participantes da marcha, que nos escreveu um texto lindo contando da sua experiência. A marcha não era só por uma causa ou só por outra, a marcha era pelo direito de ser mulher, usando as palavras da Leti: ”A marcha era em prol das mulheres, dos nossos direitos. Mas o jeito como cada um lutava por isso era único.”

Um saia curta não é convite, somos donas do nosso corpo e dos nossos destinos, dormimos com quem quisermos e dançamos como bem entendermos. Não estamos aqui para agradar os olhos de ninguém, não nos vestimos para vocês, nos vestimos para nós mesmas. Não posso ser a mulher da sua vida, pois sou a mulher da minha vida. Deixo com vocês o texto na integra, e espero que todas nós reflitamos a próxima vez de deixar sermos desrespeitadas e todos os homens reflitam antes de fazer ou falar aquilo QUE ELES NÃO TEM DIREITO!

Leti, o que é, para ti, a marcha das vadias?

É a luta das mulheres por uma maior valorização e respeito.

Porque tu decidiu participar?

Por que sempre acreditei numa sociedade mais justa. Creio que participar dessas reivindicações me torna uma pessoa mais entrosada, mais consciente do que anda acontecendo e me faz pensar sobre o que EU acho sobre o assunto.

Como foi participar?

Foi uma experiência única. No dia anterior eu havia participado da Marcha da Maconha (que é a luta da galera pela legalização da substância) e foi incrível também. A diferença foi ver que muitas pessoas estavam realmente LUTANDO e não apenas protestando. Vi mulheres realmente enaltecidas pela causa, cartazes com frases de impacto, uma galera gritando pelos seus direitos. Foi um espetáculo da sociedade. Valeu muito a pena! Me senti orgulhosa por estar lá.

O que te chamou mais a atenção?

Com certeza foram as meninas que ficaram com os seios expostos e que escreveram frases chocantes no corpo. Elas queriam mostrar justamente que o corpo é delas e que ninguém tem nada a ver com isso. Elas queriam chamar a atenção e chocar mesmo. Conseguiram fazer isso de um jeito muito memorável.

Quais os resultados que tu esperar com a marcha?

Espero que aqueles que ainda exercem o machismo ou qualquer outra forma de radicalização preconceituosa percebam que todos nós somos pessoas com sentimentos e que qualquer pessoa tem o direito de viver como quiser.

Melhor momento da marcha

Tiveram vários momentos sensacionais. Mas o meu momento preferido foi quando começaram a cantar pela primeira vez o cântico “Quem não pula é machista”. Foi lindo ver toda aquela gente pulando e gritando sem parar, sacudindo cartazes e sorrindo por estarem ali, unidas e batalhando por seus direitos. Outro momento marcante foi quando fui fotografar a galera que estava mais para o fim da marcha. Quando entramos na Oswaldo Aranha, muitos carros começaram a buzinar e a ameaçar a galera que ainda estava na rua. Nesse momento muitos ativistas, homens pintados e mulheres seminuas, começaram a cantar a todos pulmões e sacudir seus cartazes para aqueles motoristas que não entenderam o que estava acontecendo. Tenso e incrível.

 

POR LETICIA RUSCHEL

Ontem rolou a Marcha das Vadias na Redenção.

Sempre acreditei na luta da galera pelos seus direitos, mas nunca fui muito ativista.

Ontem isso mudou.

Levada pela causa feminina, tive um dos momentos mais importantes da minha vida.

Eu era só mais uma na multidão, mas foi uma experiência incrível.

A união faz a força, já diziam.

Registrei tudo em fotos e na memória.

Ver toda aquela gente batalhando, cada um por sua causa, foi lindo.

A marcha era em prol das mulheres, dos nossos direitos. Mas o jeito como cada um lutava por isso era único.

Tinha mulher vestida de homem e de peito de fora.

Tinha homem pintado segurando cartazes e com batom na boca.

Tinham crianças confeccionando cartazes.

Tinham mulheres mais velhas contando de como foi a revolução feminina nos anos 60.

Tinha de tudo. Tinha gente como a gente.

Nós mulheres não somos objetos, não somos menos capazes e menos dignas.

A luta era pela valorização.

Pelo direito de ir e vir.

A marcha não aconteceu porque queremos igualdade. A marcha aconteceu porque queremos uma sociedade just

a para todos, inclusive nós mulheres.

É bonito ser diferente. Mas o respeito a isso é mais bonito ainda.

Foi por isso que participei da marcha. Por querer que todo mundo viva feliz com as diferenças.

Sou contra qualquer tipo de extremismo.

Ninguém é dono de ninguém. O corpo é meu, a mente é minha, a VIDA é minha.

Podemos todos viver em paz com nossos gostos, defeitos, peculiaridades e biotipos.

Basta querer e lutar por isso.

Se tem algo que eu aprendi com a marcha, foi perceber que ficar sentada no sofá não adianta nada.

Quer uma vida diferente? Vai atrás, então.

Acredita em ti.

Depois desse evento maravilhoso eu passei a acreditar.

Em mim, em ti, em nós.

Imagens: Leticia Ruschel e Fora do Eixo

O post já estava pronto e agendado para ir ao ar, mas ontem recebi um email da Letícia com mais um comentário muito relevante que não poderia de estar aqui!! Divido aqui com vocês esse “apêndice” da nossa conversa que talvez seja o mais importante de tudo isso!

A marcha está gerando muita polêmica nos últimos dias. Infelizmente, algumas pessoas estão dizendo por aí que a marcha foi abusiva e não eram necessários os seios de fora, que as mulheres deveriam ter se ‘comportado’ mais. Quero dizer pra todos que ainda pensam assim, quão triste eu fico ao saber dessas opiniões, ver amigos e conhecidos ultrajados por uma marcha que luta justamente pela liberdade das mulheres me deixa indignada. Indignada por saber que são boas pessoas, esclarecidas e inteligentes, mas que ainda tem encrustada na cabeça delas essa idéia do machismo de que as mulheres devem ser polidas e conservadoras. Para quem ficou chocado e não curtiu a marcha, um recado: vocês não entenderam os objetivos do protesto. o fato de vcs justamente julgarem as AÇÕES FEMININAS por seus direitos só mostra o quanto temos que batalhar ainda. Tudo bem não concordar com os peitos de fora e homens vestidos de mulher, mas desmerecer a marcha por isso é preconceito sim. Espero que um dia todos possamos conviver em harmonia com nossos ideais.”  

E, você? O que tem para dizer?